Há um apóstolo cujo nome quase ninguém conhece — e que foi escolhido de um modo único na história da Igreja: por sorteio, guiado pelo Espírito Santo, para ocupar o lugar deixado por Judas. Conheça São Matias e o que sua história revela sobre a providência de Deus.
Se você pedisse a um católico médio que listasse os doze apóstolos, quase certamente o décimo segundo nome tardaria a aparecer — ou não apareceria. Pedro, Paulo, João, Tiago, André, Filipe — esses são conhecidos. Mas o décimo segundo? O que completou os Doze depois da traição de Judas?
São Matias. Celebrado pela Igreja em 14 de maio, é o apóstolo menos famoso dos doze.
Quem foi São Matias?
As informações históricas sobre Matias são escassas — o que é comum para muitos apóstolos que não deixaram escritos próprios. O que sabemos vem principalmente de Atos dos Apóstolos 1,15-26 e de tradições da Igreja primitiva.
Matias havia acompanhado Jesus desde o início do ministério público — desde o batismo de João até a Ascensão. Isso é explicitamente afirmado por Pedro no discurso que precede a eleição: “É necessário que um destes homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, começando pelo batismo de João até ao dia em que foi arrebatado de entre nós, se torne conosco testemunha da sua ressurreição” (At 1,21-22).
Matias estava lá. Ouviu os sermões da montanha. Viu os milagres. Esteve presente nas refeições com Jesus. Testemunhou a Ressurreição. Era, em todos os sentidos práticos, um discípulo completo e fiel — que simplesmente não estava entre os doze originalmente escolhidos.
A eleição por sorteio: Deus escolhe de modo inesperado
O modo como Matias foi escolhido é um dos episódios mais fascinantes dos Atos dos Apóstolos. Após a Ascensão, a comunidade reunida no Cenáculo — cerca de cento e vinte pessoas, incluindo Maria — precisava substituir Judas para que o colégio apostólico permanecesse completo nos seus doze membros, correspondendo às doze tribos de Israel.
Pedro presidiu a assembleia. Dois candidatos foram apresentados: José Barsabás (chamado Justo) e Matias — ambos qualificados, ambos fiéis. E então a comunidade fez algo surpreendente: orou e lançou sortes. “E a sorte caiu sobre Matias, que foi agregado aos onze apóstolos” (At 1,26).
Essa prática de lançar sortes para discernir a vontade de Deus era perfeitamente comum na tradição judaica — os Salmos e os Provérbios afirmam que “a sorte se lança no regaço, mas toda a decisão vem do Senhor” (Pv 16,33). A Igreja primitiva entendia o sorteio não como acaso, mas como um meio pelo qual Deus manifestava a Sua escolha quando a comunidade humana, por si só, não conseguia discernir.
O que São Matias nos ensina
A fidelidade anônima tem valor eterno. Matias acompanhou Jesus por anos sem ser “um dos Doze”. Era discípulo fiel, presente, atento — mas sem o cargo apostólico. Não temos registro de que ele tenha reclamado, de que tenha se sentido preterido, de que tenha abandonado o grupo por não ter sido escolhido originalmente. Permaneceu. E quando chegou a hora, estava pronto.
Quantos cristãos servem com fidelidade, sem reconhecimento, sem título, sem visibilidade — e são exatamente esses que a Providência tem guardado para missões específicas? Matias é o padroeiro de todos os que servem no anonimato.
A Providência de Deus age nos detalhes da história. A escolha de Matias poderia parecer obra do acaso — uma sorte lançada. A fé cristã enxerga diferente: é a Providência divina que age, que escolhe, que chama — pelos caminhos mais inesperados. “A sorte se lança no regaço, mas toda a decisão vem do Senhor” (Pv 16,33).
O colégio apostólico precisava ser completo. O fato de que a Igreja se preocupou imediatamente em restaurar os Doze antes de Pentecostes revela algo importante sobre a eclesiologia cristã: a estrutura que Jesus estabeleceu não é acidental — é constitutiva. Os Doze representavam Israel renovado, e sua completude era teologicamente necessária para a missão universal que se seguiria.
São Matias e o Tempo Pascal
A festa de São Matias em 14 de maio situa-se exatamente entre a festa de Fátima (13/5) e o encerramento do Tempo Pascal com Pentecostes. É um lembrete de que a Igreja apostólica — fundada sobre os Doze — está em oração, reunida com Maria no Cenáculo, aguardando o Espírito Santo que transformará pescadores e discípulos anônimos em missionários que mudarão o mundo.
Matias é um de nós: chamado não por méritos extraordinários, mas por fidelidade ordinária. Escolhido não por sua brilhante visibilidade, mas por sua presença constante. Enviado não porque se apresentou, mas porque estava pronto quando a hora chegou.
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São Matias Apóstolo, modelo de fidelidade — rogai por nós!
