Hoje a Igreja celebra São Bernardo de Claraval — o monge cisterciense que reformou o monasticismo medieval, pregou a Segunda Cruzada e escreveu sobre o amor divino com uma profundidade poética sem igual. O que esse homem extraordinário nos diz sobre a espiritualidade mariana e sobre o amor de Deus?
Hoje, 20 de agosto — Festa de São Bernardo de Claraval, abade e Doutor da Igreja. Um dos personagens mais complexos e mais fascinantes do século XII — simultaneamente o reformador monástico mais influente da Idade Média, o pregador que moveu exércitos e o místico que escreveu sobre o amor de Deus com uma beleza que poucos igualam.
Quem foi São Bernardo
Bernardo de Fontaine nasceu em 1090 em Fontaine-lès-Dijon, na Borgonha, França. Filho de família nobre, demonstrou desde jovem uma inteligência excepcional e uma sensibilidade espiritual profunda.
Em 1112, Bernardo entrou para o mosteiro de Cîteaux — o berço da Ordem Cisterciense, fundada poucos anos antes como reforma do monasticismo beneditino. Tinha vinte e dois anos. E não foi sozinho: levou consigo trinta homens, incluindo quatro irmãos e um tio.
Três anos depois, o abade de Cîteaux enviou Bernardo fundar um novo mosteiro num vale pantanoso e inóspito da Borgonha — que sob o cuidado de Bernardo se transformou num dos mais floridos da Europa. Claraval (Valle Clara) — vale luminoso — tornou-se, sob a liderança de Bernardo, o centro irradiador do cisterciensismo que fundou mais de sessenta mosteiros durante sua vida.
O teólogo do amor
O grande legado intelectual de Bernardo são seus sermões sobre o Cântico dos Cânticos — oitenta e seis sermões sobre o livro bíblico mais lírico e mais interpretado de toda a Escritura. Bernardo leu o Cântico como alegoria do amor entre Deus e a alma — e produziu uma das obras mais profundas da espiritualidade medieval.
Para Bernardo, a motivação central da vida cristã é o amor — não o medo da punição, não a esperança de recompensa, mas o amor puro a Deus por Deus mesmo. Em seu tratado “Sobre o Amor de Deus”, identifica quatro graus do amor: amar a si mesmo por si mesmo (egoísmo), amar a Deus pelos benefícios recebidos, amar a Deus por Deus mesmo, e — o mais alto — amar a si mesmo apenas em Deus.
O pai da espiritualidade mariana medieval
São Bernardo é chamado o “último dos Padres” — e também o “poeta de Maria”. Sua devoção mariana era ardente e extraordinariamente influente. Foi ele quem estabeleceu o Memorare — “Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…” — como uma das mais amadas orações marianas da tradição católica.
Sua imagem mais famosa na iconografia é a da Lactação de São Bernardo — a visão em que Nossa Senhora, aparecendo-lhe durante a oração, derramou sobre seus lábios três gotas do leite materno — símbolo da graça e da sabedoria que ela derramou sobre sua vida e sua obra.
A devoção mariana de Bernardo influenciou profundamente toda a espiritualidade medieval e renascentista — e suas reflexões sobre Maria como “estrela do mar” (Stella Maris) e como mediadora de todas as graças são citadas na mariologia até hoje.
Uma frase de São Bernardo para hoje
“É preciso que em toda tentação, em todo momento de angústia, penseis em Maria; invocai Maria! Que seu nome não se afaste dos vossos lábios, que não saia do vosso coração.”
Esta exortação de Bernardo — escrita no século XII — é tão atual quanto quando foi escrita. E é o modelo da vida mariana que este blog tem proposto ao longo de todos estes meses.
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São Bernardo de Claraval, Doutor Melifluo, cantor de Maria — rogai por nós!

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