A Bíblia católica tem 73 livros e a maioria das bíblias evangélicas tem 66. A diferença está em sete livros do Antigo Testamento e em algumas passagens de Ester e de Daniel. Ela não nasceu de alguém acrescentar ou retirar nada por conta própria: vem de duas coleções antigas das Escrituras judaicas que já circulavam lado a lado no tempo de Jesus.
Duas coleções, e não uma lista adulterada
Antes de Cristo, as Escrituras de Israel circulavam em duas formas. Havia os livros em hebraico, lidos nas sinagogas da Palestina, e havia a tradução grega feita em Alexandria a partir do século III a.C., conhecida como Septuaginta, usada pela enorme comunidade judaica que já não falava hebraico no dia a dia.
A Septuaginta era mais do que uma tradução: trazia também alguns livros escritos em grego ou preservados nessa língua, que não constavam da coleção hebraica. Nenhuma das duas era clandestina. As duas eram lidas por judeus devotos, e a escolha entre uma e outra era, em boa medida, uma questão de onde a pessoa vivia e que língua falava.
Os primeiros cristãos, espalhados pelo mundo de língua grega, usaram sobretudo a Septuaginta. Isso aparece dentro do próprio Novo Testamento: a maioria das citações do Antigo Testamento feitas pelos apóstolos segue o texto grego, e não o hebraico.
Como a Igreja fixou a sua lista
Ao longo dos primeiros séculos, tanto a comunidade judaica quanto a Igreja foram consolidando quais livros consideravam Escritura, e chegaram a resultados diferentes a partir de tradições diferentes.
Do lado cristão, concílios locais no fim do século IV, em Hipona (393) e em Cartago (397), listaram os livros do Antigo e do Novo Testamento incluindo os que hoje chamamos deuterocanônicos. Foi também nesse período que São Jerônimo traduziu as Escrituras para o latim, na versão que ficou conhecida como Vulgata.
Vale registrar um detalhe de honestidade histórica: o próprio Jerônimo tinha reservas quanto a alguns desses livros, por preferir a coleção hebraica, e ainda assim os traduziu e os transmitiu. A questão não era pacífica nem simples, e a Igreja conviveu com esse debate por muito tempo.
Os sete livros e as passagens em questão
São sete livros inteiros mais alguns trechos.
| Livro | Do que trata |
|---|---|
| Tobias | História de família, casamento e a companhia do anjo Rafael |
| Judite | A libertação de uma cidade sitiada pela coragem de uma viúva |
| Sabedoria | Reflexão sobre a justiça, a morte e a vida eterna |
| Eclesiástico (Sirácida) | Ensinamentos práticos sobre a vida cotidiana e a sabedoria |
| Baruc | Oração e consolo ao povo no exílio |
| 1 e 2 Macabeus | A resistência do povo judeu sob perseguição no século II a.C. |
| Trechos de Ester e Daniel | A oração de Ester; a oração de Azarias, o cântico dos três jovens, Susana e Bel |
Por que o assunto voltou no século XVI
A pergunta sobre o cânon se tornou central durante a Reforma. Os reformadores optaram por seguir a coleção hebraica no Antigo Testamento, entendendo que era a lista recebida pelo próprio judaísmo. Foi uma decisão de critério: entre as duas tradições antigas, escolheram uma.
Um dado que costuma surpreender: nas primeiras bíblias protestantes esses livros continuaram sendo impressos, reunidos numa seção à parte. Lutero os manteve na sua tradução com uma apresentação dizendo que eram bons e proveitosos de ler, ainda que não os equiparasse aos demais. A King James de 1611 também os trazia. Foi só ao longo dos séculos seguintes, sobretudo por decisões de sociedades bíblicas no século XIX, que essa seção deixou de ser impressa na maioria das edições.
Do lado católico, o Concílio de Trento tratou do assunto na quarta sessão, em 8 de abril de 1546, e definiu solenemente a lista dos livros sagrados, confirmando o que os concílios do século IV já haviam reunido.
O que isso significa na prática
Significa que existem duas listas, cada uma com razões históricas sérias, e que a diferença entre elas é real e antiga, sem que ninguém tenha agido de má-fé. Católicos leem 73 livros porque a Igreja recebeu e confirmou a coleção mais ampla, que era a usada pelos primeiros cristãos.
Significa também que quem lê o Livro de Daniel numa Bíblia católica encontra catorze capítulos, e numa edição de 66 livros encontra doze. É por isso que, no Mês da Bíblia deste ano, vale conferir qual edição você tem em casa antes de começar a leitura.
Como reconhecer uma Bíblia católica na hora de comprar
Dois sinais bastam. O primeiro é o número de livros: procure Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e os dois de Macabeus no índice. O segundo é a aprovação eclesiástica impressa nas primeiras páginas, concedida pela Santa Sé ou pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. O direito da Igreja exige essa aprovação para as edições destinadas aos fiéis (cân. 825).
Entre as edições brasileiras aprovadas mais conhecidas estão a Bíblia de Jerusalém, a Bíblia Ave-Maria, a Bíblia do Peregrino, a Bíblia Pastoral e a tradução da própria CNBB. Elas diferem no estilo da tradução e no volume de notas, não no cânon.
Perguntas frequentes
Quantos livros tem a Bíblia católica?
O que quer dizer deuterocanônico?
O Novo Testamento é igual nas duas?
Como sei se uma Bíblia é católica?
As bíblias ortodoxas seguem qual lista?
Resumindo: 73 livros na Bíblia católica, 66 na maioria das evangélicas, mesmo Novo Testamento nas duas, e a diferença concentrada em sete livros e algumas passagens do Antigo Testamento.
Se você vai acompanhar o Mês da Bíblia, abra o índice da sua edição e procure por Baruc. Ele fica logo depois de Lamentações, e a presença dele responde a pergunta em cinco segundos.

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