Ele não podia falar, não podia pedir, não podia sequer gritar por socorro. Foram outros que o levaram até Jesus — e o silêncio de uma vida inteira se desfez em um instante.
O milagre no Evangelho (Mateus 9,32-34)
Mateus narra este milagre logo depois da cura dos dois cegos, fechando uma sequência impressionante de sinais. Mal os cegos saem, apresentam a Jesus um homem mudo, possesso do demônio. O relato é curto e direto: aquele homem não fala porque há algo que o domina por dentro. Ele não pede nada, não faz nenhuma profissão de fé, não grita como Bartimeu gritou — ele é levado. São outros que o carregam até Jesus, e é essa caridade silenciosa que abre a porta do milagre.
Jesus expulsa o demônio e, imediatamente, o mudo começa a falar. As multidões se admiram e dizem: “Nunca se viu coisa semelhante em Israel”. Mas os fariseus, diante exatamente do mesmo sinal, reagem de forma oposta: “É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os demônios”. O milagre é um só, e as leituras são duas — o povo simples reconhece Deus agindo; os que se julgavam donos da religião preferem atribuir ao mal aquilo que só o bem seria capaz de fazer.
O que este milagre nos ensina
Existem mudezes que não são de garganta. Quantas vezes deixamos de rezar, de pedir perdão, de dizer “eu te amo”, de falar o que precisa ser falado — não porque nos falte voz, mas porque algo dentro de nós trava. O medo, a vergonha, o ressentimento, uma culpa antiga, um vício escondido: tudo isso emudece. E o mais bonito desta cena é que o homem não conseguiu se ajudar sozinho, nem precisou: alguém o levou. Às vezes a nossa missão não é falar por quem está calado, mas carregá-lo até Jesus na oração e deixar que Ele faça o resto. O final da passagem, porém, serve de alerta: diante da mesma obra de Deus é possível se admirar ou se endurecer. A dureza dos fariseus não veio de falta de prova, veio de falta de disposição.
Para viver esta semana
Pense em alguém que está “sem voz” na sua vida — um filho que se fechou, um amigo que sumiu, alguém que já não consegue nem rezar. Carregue essa pessoa até Jesus esta semana: reze pelo nome dela todos os dias e, se for possível, faça um gesto concreto, uma ligação, uma mensagem, uma visita. Depois olhe para dentro e pergunte-se: existe alguma palavra que eu preciso dizer e venho adiando? Um pedido de perdão, uma conversa difícil, uma confissão que ficou para depois. Peça a Jesus que solte a sua língua e diga essa palavra ainda esta semana, antes que o silêncio vire hábito.
Oração
Senhor Jesus, que devolveste a fala ao homem que o mal havia calado, olha para tudo o que está mudo dentro de mim. Solta a minha oração quando ela trava, solta o meu perdão quando ele fica preso no orgulho, solta a minha coragem quando eu me calo diante do que precisa ser dito. Dá-me também um coração capaz de carregar os outros até Ti, como fizeram aqueles que levaram esse homem sem que ele pedisse. E guarda-me da dureza de quem vê a Tua obra e prefere não reconhecer. Que a minha primeira palavra, sempre, seja o Teu nome. Amém.
Perguntas frequentes
Onde está o milagre do mudo possesso na Bíblia?
O milagre do mudo possesso está em Mateus 9,32-34, logo depois da cura dos dois cegos. Lucas narra um episódio muito parecido em Lucas 11,14-15, e o próprio Mateus apresenta mais adiante um caso semelhante, o de um possesso cego e mudo, em Mateus 12,22-24. Entre os milagres de Jesus, são sinais que unem cura e libertação num mesmo gesto.
O homem era mudo por doença ou por possessão?
O Evangelho é explícito em Mateus 9,32: tratava-se de um homem “mudo, possesso do demônio”. Naquele caso, a mudez era efeito da ação do maligno, e por isso Jesus não realiza uma cura física comum — Ele expulsa o demônio, e a fala volta como consequência da libertação. A Igreja distingue com cuidado doença e possessão: nem toda enfermidade tem origem espiritual, e o discernimento cabe sempre à autoridade eclesial.
Por que os fariseus disseram que Jesus expulsava demônios pelo príncipe dos demônios?
Diante do que está narrado em Mateus 9,34, os fariseus não conseguiram negar o fato do milagre, então atacaram a sua origem. Era uma forma de desacreditar Jesus sem precisar admitir que Deus agia por meio dEle. Mais adiante, o próprio Jesus responde a essa acusação mostrando que um reino dividido contra si mesmo não subsiste, e que expulsar demônios pelo Espírito de Deus é sinal de que o Reino já chegou (Mateus 12,25-28).
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Esta reflexão faz parte da série Os Milagres de Jesus, publicada toda semana aqui no blog. Você pode acompanhar todas as matérias na categoria Os Milagres de Jesus.
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